segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Precisando comprar um amigo



Quando escolhemos viver longe do nosso país, independente de qual tenha sido  a nossa motivação, temos sempre que conviver com um inimigo que por vezes , irônicamente, até  se torna um amigo: A solidão.

Por mais que você tente criar novas situações para suprir tal sentimento, ela sempre estará lá. As vezes te fazendo companhia em momentos meditativos e de reflexão, quando realmente necessitamos dela. 
 Mas peraí,  ninguém em sã consciência vive 24 horas em estado meditativo! 

Eu adoro meus momentos meditativos . A solidão é uma amiga que nunca vai te interromper quando estamos precisando silenciar a alma. Ela é discreta e silenciosa. 

Mas quem foi que disse que ela é aquela amiga que te levanta os ânimos? 

A solidão tem a função de nos conectar com o nosso mundo interior. Ela é introspectiva, jamais expansiva. 

Durante todo o período de 10 anos de vida em terras longínquas, tive que aprender a lidar com ela, para não sofrer com a sua presença constante. Eh, ela nos acompanha desde o momento em que entramos no portão de embarque de um aeroporto qualquer, e vai nos fazendo companhia por onde quer que se vá. Não adianta ignora-la, ela sempre estará lá, bem ao seu lado. Além de Deus, é claro.

A falta de opção em viver relacionamentos verdadeiros e ter que se conformar com aquele círculo de " meia-dúzia" de amigos que não fazem parte do seu mundo, ou que também vivem a sua luta diária com ela ( a solidão) , e os limites que esta companhia nos causa, não é um fator muito animador quando se vive em terras longínquas. 

A saudade é outro sentimento que se mescla à solidão de ser imigrante, e não adianta querer fugir dela. É como se fosse uma condição sine qua non. Olha que expressão mais chique!

Nos últimos anos, aqui em terras nipônicas, ela anda mais intensa, mais insistente. Talvez pelo fato da maioria dos meus amigos ( brasileiros) terem ido embora, talvez ela esteja exigindo modificações na minha mentalidade. Conviver com ela ( a solidão) em terras longínquas é uma constante. E pior do que esta realidade , é que esta convivência nos exige muita criatividade.

 A solidão é muito exigente, e se nós, não nos adaptamos a ela e não a aceitamos tendo atitudes inteligentes, ela simplesmente nos consumirá . 

A solidão não é de forma alguma maléfica , quando ela nos serve como um guia espiritual, para trilhar caminhos e mundos que só nós mesmos podemos trilhar. Porém, o excesso de momentos sem a existência de contato físico com o ambiente em que vivemos, o Japão é a excelência no quesito distancia física, inicia-se um outro processo quase que invisível : a solidão física. 

Um abraço, um afago na testa, um tapinha nas costas, três beijinhos no rosto e tantas outras expressões de carinho da qual nós brasileiros somos habituados. Isto sim, faz muita falta, e a naturalidade com que se convive com esta falta acaba nos transformando em seres totalmente inexpressivos . 

Para driblar tais situações e as suas consequências, estando em terras longínquas , ou não, uma boa saída é comprar um amigo. Não, não é como o fazem alguns japoneses ,quando pagam para ter simplesmente a companhia de alguma bella donna. Me refiro a um amigo de verdade que pode ser comprado, ou adotado : o melhor amigo do homem, um cão. 

Será que os caēs japoneses também possuem hereditariedade samurai? 

Espero que não. 




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